Energia solar, disrupção e mercado livre: deu match!

O Ambiente de Contratação Livre (ACL) precisa de mais energia disponível para ser negociada, enquanto a energia solar precisa se livrar das amarras da atual dependência de leilões de venda de energia

Recentemente ultrapassamos a marca de 3 mil megawatts em potência instalada solar fotovoltaica no Brasil, que reúne a geração centralizada, micro e minigeração distribuída. É um número a ser valorizado, considerando o cenário que vivíamos há poucos anos aqui no Brasil, mas ainda distante de países como China, EUA, Japão e tantos outros com potência acumulada dezenas de vezes superiores à nossa.

Ainda temos algumas lições de casa importantes a fazer: a energia solar representa apenas 1,2% da matriz elétrica brasileira, aquém de fontes como carvão mineral, petróleo, gás natural, biomassa e fontes eólicas. Parte da explicação para o fato de nosso crescimento ainda ser muito tímido passa diretamente pelo nosso modelo de novos projetos, altamente dependente do Ambiente de Contratação Regulada (ACR) e de projetos de geração distribuída, além do fato de que a energia solar só passou a ser mais competitiva no Brasil nos últimos anos.

No entanto, alguns fatores podem alavancar esse cenário, transformando a energia solar fotovoltaica na bola da vez. Eu elencaria dois: a disrupção do setor elétrico e a entrada em vigor do Preço de Liquidação das Diferenças (PLD) Horário.

Em primeiro lugar, é importante frisar que o papel da energia solar é chave nos dois cenários. Passamos de uma fonte de energia quase que satélite no cenário brasileiro para sermos vistos como a grande aposta do momento.

Tratemos primeiro do ponto de vista da disrupção do setor elétrico, algo que vem se desenvolvendo com o passar dos anos e já é uma realidade. O fato de o consumidor ter abandonado a sua postura passiva já é final, não vai mais mudar. Este novo prossumidor (consumidor e gerador de energia) terá um papel cada vez mais chave na forma como nosso cenário elétrico se desenvolverá no futuro. Ele deseja ser mais eficiente, desenvolver sua própria fonte de energia e controlá-la, por meio de dispositivos de armazenamento, como baterias, por exemplo, além da possibilidade de consumir uma energia renovável.

É claro que esse conjunto de mudanças impactará não só a matriz solar. Mas é fundamental entender que a energia solar é a maior fonte de desejo, tendo em vista que ela casa perfeitamente com as necessidades primárias de quem precisa de mais energia no Brasil (geralmente durante o dia).

Esse cenário nos permite afirmar que a energia solar é a fonte renovável que melhor atende o perfil de consumo comercial. Veja como exemplo a curva de geração solar, se comparada ao consumo de um shopping center:

Fonte: Comerc Energia

 

Se não houver mudança substancial no cenário, devemos atingir 2027 com uma potência instalada centralizada próxima de 8,6 GW, quatro vezes superior a 2019, contudo ainda tímida…

Fonte: EPE; Elaboração: MegaWhat

…já no caso da macro e microgeração distribuída, poderemos alcançar a marca de 21 Gigawhats de potência instalada:

 

Fonte: EPE; Elaboração: MegaWhat

 

E qual seria o fator que alteraria drasticamente essa escala? O Ambiente de Contratação Livre, também chamado de mercado livre de energia!

Hoje, existe um cenário em que as duas partes podem se beneficiar mutuamente: o ACL precisa de mais energia disponível para ser negociada, enquanto a energia solar precisa se livrar das amarras da atual dependência de leilões de venda de energia (A-4 e A-6 por exemplo).

A energia solar fotovoltaica oferece preços cada vez mais competitivos e já inferiores aos de outras fontes renováveis, como PCHs, biomassa e eólica (conforme observamos no último leilão), resultado direto da redução no custo para adquirir equipamentos e aumento de eficiência dos equipamentos.

O crescimento da energia solar pode ser um fator impulsionador de nossa economia nacional. Projetos de energia solar no ACL gerarão novas oportunidades em segmentos importantes de nossa economia, como indústrias, shopping centers, supermercados, entre outros. Isso será possível por meio da estruturação de produtos customizados, adequados especificamente às necessidades de consumidores com uma curva de consumo de energia elétrica diurna, no horário comercial, quando a geração da fonte solar fotovoltaica se destaca. Se considerarmos que, do total de unidades que contratam energia no mercado livre hoje, 30% são comércios e 16% serviços, não é difícil entender como essa correlação existe, tendo em vista que a maior parte deles atua dentro do que popularmente chamamos de horário comercial.

O resultado de uma estratégia como essa pode ser auspicioso e explicar a previsão do Energy Watch Group que indica que o 1% da fonte solar na matriz mundial de energia hoje se torne 69% até 2050:

Fonte: Energy Watch Group/ LUT – Lappeenranta University of Technology/ Global Energy System Based on 100% Renewable Energy – Power Sector – nov. 2017

 

Acredito que essa união – ou match, utilizando um linguajar contemporâneo – entre a matriz solar, a disrupção do setor de energia e o crescimento do mercado livre representará um marco no cenário brasileiro, não só do ponto de vista de quem é especialista no segmento fotovoltaico, mas no âmbito geral. Afinal, energia mais barata e ainda por cima renovável só pode ser um bom negócio.

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